KICK ASS Quebrando Tudo

KICK ASS Quebrando Tudo

Quando uma HQ se torna um filme, é inevitável, para quem leu a revista, analisar a produção de duas maneiras diferentes. Num primeiro momento, nos perguntamos se aquele é um bom filme. Mas também nos perguntamos se é uma boa adaptação.

Há quem não entenda o conceito, mas existem bons exemplos por aí. ConstantineO Procurado são bons filmes, mas que falham miseravelmente como adaptações, distorcendo demais os conceitos originais das obras.

O que costuma constituir uma boa adaptação (não só de HQs) não é a produção de uma cópia exata da obra original. Pelo contrário, algumas mudanças são muito bem-vindas, desde que não alterem a alma da história. Se todas as adaptações fossem apenas um decalque do original, pouca gente teria interesse em rever a mesma exata história, apenas em outra mídia.

Com isso em mente, vamos falar do que interessa, o filme Kick-Ass: Quebrando Tudo (Kick-Ass). Adaptando a HQ criada por Mark Millar e John Romita Jr., o filme tem direção de Matthew Vaughn, também responsável pelo roteiro, ao lado de Jane Goldman.

Kick-Ass chamou muita atenção já em forma de quadrinhos, principalmente por conta de sua ideia básica: a de um fã de quadrinhos que vive num mundo real, um lugar onde não existe poderes, tecnologias mirabolantes e afins. Só que este fã decide se tornar um super-herói mesmo assim, com resultados fisicamente pouco agradáveis.

Aaron Johnson vive Dave Lizewski, o Kick-Ass. De todos os personagens do filme, é o único mais fiel aos quadrinhos, ainda que um pouco diferente. O tipo de pessoa que nunca se destaca em nada, Dave é ainda um tanto medroso, ou seja, a última pessoa que você enxergaria como um herói. Esse paradoxo ajuda a construir a simpatia pelo personagem, algo imprescindível para apreciar o filme. Johnson é muito divertido na tela, cheio de trejeitos e convencendo quando se demonstra atrapalhado.

O restante do elenco, no entanto, se destaca muito mais do que o protagonista. Porém, sem nenhuma exceção, todos são bem diferentes de suas versões dos quadrinhos, sejam em suas ações, histórias de fundo, aparência ou uniformes.

Sem nenhuma sombra de dúvida, quem mais brilha é Chloe Moretz, no papel de Hit Girl, a menina-heroína, que é basicamente uma psicopata em miniatura.  Num misto de meiguice e violência, a personagem rouba a cena a todo momento, rendendo as cenas de ação mais exageradas e esdrúxulas (num bom sentido, a intenção da produção é justamente essa). Seu visual, bem diferente dos quadrinhos, a torna uma mistura de Robin com uma colegial.

Nicolas Cage, que há anos vem se apagando cada vez mais, desempenhando inúmeros papéis ruins, surpreende vivendo o pai de Hit Girl, Big Daddy. Também bem diferente dos quadrinhos, o personagem tem o visual mais satírico da produção, claramente inspirado no Batman. O  modo como Big Daddy é apresentado ao mesmo tempo como  um vigilante linha dura e um paizão coruja é um dos grandes acertos do roteiro, que desenvolveu muito bem todos os coadjuvantes, que nos quadrinhos eram quase páginas em branco.

Mark Strong, como não poderia deixar de ser, vive o milésimo vilão de sua carreira, desta vez o mafioso Frank D´Amico. Embora o ator encarne quase que exclusivamente vilões nos últimos anos, aqui ele segue um caminho diferente, saindo totalmente da seriedade, e se mostrando bem à vontade no papel mais divertido de sua carreira.

Há ainda outro fantasiado: Red Mist, interpretado por Christopher Mintz-Plasse. Provando que a produção investiu pesado no humor, é mais um personagem bem diferente dos quadrinhos, onde era bem mais sério. Essa mudança de personalidade é talvez a única não tão bem sucedida, pois altera por demais os atributos do personagem, mesmo que ao fazer isso sirva melhor à estrutura da história.

Num primeiro momento, o que chama mais atenção em Kick-Ass é mesmo a violência. E isso foi um grande problema no início, já que o diretor teve que se virar sem grandes estúdios, já que eles achavam arriscado demais mostrar uma menininha retalhando seus inimigos. Com o filme pronto, Vaughn não teve grandes dificuldades para achar uma distribuidora, e já na campanha de marketing foi possível afirmar que a recepção do público foi boa.

O irônico é que, por mais violento que seja, o filme ainda é muito mais leve do que o gibi, que tem cenas escatológicas do tipo que deixariam o Justiceiro com inveja. Isso não prejudica em nada a produção, pois mesmo assim, temos bastante violência, não perdendo a essência da HQ. Como já dito, outra mudança é o humor, mais presente no filme do que na HQ.

Nos quadrinhos, quase todo o humor tinha origem em comentários sobre outras revistas ou até seriados, ou em situações que remetem aos mais famosos clichês dos super-heróis. Obviamente, quadrinhos e cinema são meios bem diferentes, com públicos diferentes também. As piadas da HQ Kick-Ass foram criadas para agradar fãs mais fanáticos, mas nos cinemas muitas delas se perderiam ou não fariam sentido para o grande público. A saída foi coerente e simples: alterar essas piadas e situações ao público dos super-heróis cinematográficos. Assim, há inúmeros momentos que nos remetem aos filmes de Homem-Aranha, Batman e outros.

A trama básica dos quadrinhos é mantida, mas bastante ampliada, já que a história original é bem limitada, não explorando os coadjuvantes e sendo demasiadamente simples. Se fosse uma adaptação levada ao pé da letra, Kick-Ass seria quase um curta-metragem. Mesmo assim, a adaptação é fiel à ess
ência da HQ, só começando a mudar as coisas de verdade perto do final, o que funciona bem na maioria dos aspectos, mas não em todos. Por um lado, isso deixa o filme bem mais atrativo para quem não leu a HQ, afinal, assim não se torna previsível. Por outro, algumas cenas fogem um pouco da proposta “super-herói do mundo real”, mas ainda assim não é nada grave demais, sendo na verdade bem divertido e importante para criar um clímax.

Alguns podem sentir falta da origem de Big Daddy como mostrada nos quadrinhos, onde é mais cínica e ligada ao meio, mas todos provavelmente entenderão que a origem mostrada no filme é mais uma homenagem/sátira ao gênero, se encaixando num dos clichês mais comuns dos quadrinhos.

Talvez o filme mais divertido do ano até o momento, o único defeito indefensável de Kick-Ass foi produzido aqui no Brasil. Falo, é claro, do ridículo subtítulo Quebrando Tudo, que além de tudo é totalmente desnecessário.

Elenco: Aaron Johnson, Chloe Moretz, Nicolas Cage, Mark Strong, Christopher Mintz-Plasse, Lyndsy Fonseca, Clark Duke, Omari Hardwick. Roteiro: Matthew Vaughn e Jane Goldman. Direção: Matthew Vaughn.

Fonte: Leonardo Vicente Di Sessa (HQManiacs)

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