Sarjeta do Terror #27 – Vigor Mortis Comics – Volume 1

Sarjeta do Terror #27 – Vigor Mortis Comics – Volume 1

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Fazer terror nos quadrinhos é bem mais difícil do que pode se pensar num primeiro momento. Imagine que, comparado com outras mídias como cinema/TV ou literatura, os quadrinhos possuem diversas limitações e armadilhas que contribuem para que uma história de terror facilmente deixe de funcionar. Cinema/TV tem as vantagens da “realidade” (usar pessoas reais), o movimento, o som (que, segundo pesquisas, é responsável por 50% ou mais da emoção transmitida em um filme), enquanto que a literatura tem a vantagem da abstração e da subjetividade a partir do uso das palavras. Quadrinhos caminham num meio termo a isso, onde a imagem pode matar a subjetividade, ao mesmo tempo que dificilmente supera a “realidade” da imagem real, não possui som e nem movimento. Além do fato de que qualquer leitor pode transgredir as regras e olhar o final da história, destruindo uma narrativa que se focasse, por exemplo, em uma surpresa final.

São muitos os obstáculos para se fazer uma história de terror que funcione em HQ, e poucos o que conseguiram concretizar isso ao longo das décadas. Felizmente, Vigor Mortis Comics é um destes exemplos. Mas também não é para menos, pois a HQ é mais do que uma (ou várias, no caso) história em quadrinhos: é o resultado de uma mistura de influências e de gêneros, que cruza mídias e mostra que o Brasil inova em diversos aspectos culturais, mas infelizmente pouco o público em geral sabe disso.

Para você entender o que eu quis dizer, é importante contextualizar as coisas: Vigor Mortis é um álbum que compila diversas histórias baseadas em personagens e situações de universos criados no teatro, pela companhia de mesmo nome, criada por Paulo Biscaia Filho, mestre em artes pela Royal Holloway University of London. Mas não pense que o título pomposo colocou Biscaia a fazer obras abstratas e intelectualóides que ninguém entende. Pelo contrário, suas influências são as mais variadas e vão desde o Théâtre Du Grand Guignol ao cinema do Quentin Tarantino, passando por diversos gêneros literários e, é claro, quadrinhos. Inclusive, os quadrinhos são uma das maiores influências para as peças produzidas pela companhia teatral.

Mas falemos da HQ propriamente dita. Em Vigor Mortis Comics, junta-se à Paulo Biscaia filho os quadrinistas José Aguiar – que tem o expressionismo alemão como uma de suas influências, o que é mais do que adequado para este tipo de projeto – e o desenhista DW Ribatski, que já publicou na antologia Café Espacial e tem um projeto para sair em parceria com Rafael Coutinho, dois ótimos artistas que entendem muito bem do riscado.

Existem 3 grandes méritos em Vigor Mortis Comics: O primeiro deles é explorar de forma intensa a interrelação entre entre gêneros e as influências principais das histórias originais. Algumas são descaradas (como Tarantino, Dario Argento, filmes trash, histórias noir, os quadrinhos de terror/erótico estilo Krypta e os quadrinhos da Marvel). A segunda é que as histórias que aparecem no álbum se passam dentro do “universo” das peças, mas são histórias inéditas e que podem ser lidas tranquilamente sem que tenha assistido a qualquer uma das obras originais. A terceira é inclusive um dos motivos pelos quais acredito que Vigor Mortis Comics consegue funcionar como um álbum de terror, que é justamente se focar menos no terror como gênero e mais em explorar quais situações que, visualmente, levam o leitor ao limite, incutindo emoções das mais diversas, desde medo e repulsa até raiva e risos. Há muito que o terror “de verdade” deixou de ter como objetivo apenas “dar medinho” (se é que alguma vez o gênero teve essa intenção) e se mostra como uma forma de arte capaz de despertar emoções primitivas e constrangedoras, usando a perturbação como instrumento para que se adentre na história (é claro que Hollywood parece ter se esquecido disso, mas isso é assunto para outro post). Visto por este aspecto, Vigor Mortis Comics é um excelente álbum de terror, que não deve nada em comparação com outras obras em quadrinhos internacionais do gênero.

Caso leia Vigor Mortis Comics e comece a se interessar por esse mundo, há também um volume 2 que, ao invés do formato antologia, possui uma história longa que funciona quase como que um prequel de um personagem das peças de teatro. Mas sobre isso falaremos mais adiante.

Curiosidades:
– Le Théâtre du Grand-Guignol era um teatro na região do Pigalle, em Paris (situado na rue Chaptal, número 20 bis), o qual, desde sua inauguração em 1897 até o seu fechamento em 1962, especializava-se em shows de horror naturalista. O termo é geralmente utilizado em termos gerais para descrever um tipo bem descrito e amoral de entretenimento de horror. As peças prezavam por um estilo teatral que escandalizou Paris no fim do século XIX/Começo do Século XX por sua postura de explorar as emoções do público através do exagero e situações obscenas. Uma representacão do Grand Guignol pôde ser vista na primeira temporada da série Penny Dreadful;
– Os personagens de Vigor Mortis Comics são retirados de diversas peças produzidas pela companhia Vigor Mortis, como Morgue Story – Sangue, Baiacu e Quadrinhos, Graphic, Garotas Vampiras Bebem Vinho e Snuff Games;
– Morgue Story, uma das peças que serve como base para as histórias de Vigor Mortis Comics já teve adaptação cinematográfica em um filme independente de mesmo nome.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Edições anteriores:

26 – Super-heróis com um “pé” no terror: O Espectro

25 – Warren Publishing: Contornando o Comics Code

24 – Prontuário 666, os anos de Cárcere de Zé do Caixão

23 – Da TV para os quadrinhos: Arquivo X

22 – Criadores de Terror: Eugenio Colonnese

21 – Terror nas grandes editoras, parte final

20 – Terror nas grandes editoras, parte 2

19 – Uzumaki

18 – Terror nas grandes editoras, parte 1

17 – Do cinema para os quadrinhos: Evil Dead/Army of Darkness

16 – Terror no mundo real: o Comics Code Authority, parte final

15 – Super-heróis com um “pé” no terror: Doutor Oculto

14 – Terror no mundo real: o Comics Code Authority, parte 1

13 – Da TV para os quadrinhos: Elvira, a Rainha das Trevas

12 – EC Comics , epílogo: O Discurso Contra a Censura

11 – Criadores de Terror: Salvador Sanz

10 – EC Comics, parte 3: o fim

9 – Super-heróis com um “pé” no terror: Homem Formiga

8 – Interlúdio: Shut-in (trancado por dentro)

7 – EC Comics, parte 2: o auge

6 – Interlúdio: Garra Cinzenta, horror pulp nacional

5 – EC Comics, parte 1: o início

4 – Asilo Arkham: uma séria casa num sério mundo

3 – A Era de Ouro dos comics de terror

2 – Beladona

1 – As histórias em quadrinhos de terror: os primórdios

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