Sarjeta do Terror #15 – Super-heróis com um “pé” no terror: Doutor Oculto

Sarjeta do Terror #15 – Super-heróis com um “pé” no terror: Doutor Oculto

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A maioria de vocês talvez nunca tenha parado para pensar nisso, mas já imaginaram como era a vida sem televisão? Atualmente, mesmo com a Internet crescendo em progressão geométrica, podemos dizer que a TV ainda exerce muita influência social, sendo de fonte de notícias a ferramenta de entretenimento. E entretenimento é o que mais temos na TV hoje em dia. Parte do entretenimento está nas histórias seriadas, que aqui no Brasil tinha pouca aceitação em caso de produtos nacionais (até porque o público geral prefere os folhetins), mas que têm grande aceitação entre os produtos americanos, principalmente. E os americanos são especialistas em produzir séries de TV.

Mas não é sobre as séries de TV que vamos falar, e sim de histórias em quadrinhos. Por que então falei sobre a TV e as histórias seriadas?

Imaginem como era a vida antes da televisão. A vida não era muito diferente, apenas as notícias não chegavam até nós em tempo real e o que vemos na TV e na internet eram aquilo que líamos impresso, ou seja, notícias líamos nos jornais, e para histórias seriadas líamos histórias em quadrinhos.

Entre o fim do século XIX e a metade do século XX, a produção de quadrinhos americana contava, em grande parte com histórias que mais tarde foram conhecidas como “Pulp” (sobre o qual já dei uma pincelada na primeira matéria desta coluna). Este termo descrevia quadrinhos seriados de aventura e ficção, de entretenimento fácil e leitura rápida, histórias sem pretensões artísticas ou intelectuais, mas que garantiam a diversão dos leitores. Em termos de formato, podemos dizer que os Pulps eram o “primo rico” dos fanzines, quadrinhos produzidos de forma rápida, com histórias curtas e impressos em papel barato, geralmente com capa colorida e miolo preto e branco. Guardadas as devidas proporções, os quadrinhos Pulp representavam para uma sociedade sem televisão o que as séries de TV representam para nossa sociedade hoje (embora essa dinâmica esteja mudando profundamente nos últimos anos – mas essa é uma outra história).

O surgimento do Superman, na revista Action Comics nº 1 costuma tradicionalmente marcar o início da transição da era Pulp para a Era dos Super-Heróis (sabemos que há controvérsias) e, durante esse período, havia pouca distinção de gênero entre as histórias, pois ambos os estilos compartilhavam diversos elementos, uma vez que os supers não são outra coisa senão “descendentes” dos heróis das revistas Pulp.

Neste cenário, surgia, em 1935 (antes do Superman), um personagem que pode ser considerado uma espécie de “elo perdido” que liga as ficções Pulp e as histórias de Super-herói: Doutor Oculto.

Criado na edição número 6 da revista More Fun Comics, Doutor Oculto, também conhecido como “O Detetive Fantasma” era um investigador particular com poderes sobrenaturais com visual típico das histórias noir, que tratava de resolver casos envolvendo o paranormal, o místico e o sobrenatural. Eventualmente, o detetive passaria a contar com uma parceira, chamada Rose Psychic.

Como a grande maioria das histórias da época, não havia muita preocupação em mostrar sua origem, e sim estabelecer o personagem no seu presente e mostrando-o a cada mês investigando um caso sobrenatural diferente (num formato semelhante a muitas séries de TV de antigamente, como Carl Kolchak, jornalista e personagem da série homônima que inspirou mais tarde a série de TV Arquivo X), então muito pouco se sabe hoje sobre as origens oficiais do personagem.

E teria continuado assim se o personagem não tivesse sido resgatado nos anos 80, na revista All-Star Squadron, uma hq de equipe que se passava durante a Segunda Guerra. Na revista, a origem do personagem foi finalmente contada, usando-se de um retcon (atualização ou modificação de informações no passado dos personagens), mostrando que Oculto e Rose eram irmãos que, quando crianças foram oferecidas como sacrifício a Satã por um culto místico em algum ponto do ano de 1889. Algo no ritual deu errado e o demônio invocado foi, ao invés de Satã, Koth, uma criatura que não se alimentava de almas puras, e sim corruptas. Assim, ele eliminou todos os membros do culto enquanto os dois irmãos foram resgatados por um homem chamado Zator e levados para uma cidadela que era lar de uma poderosa organização de místicos chamada de Os Sete (não confundir com o livro brasileiro homônimo). Após passarem anos estudando as artes místicas, mudaram-se para Nova York onde abriram uma agência de detetives com o intuito de resolver casos sobrenaturais.

Oculto foi aproveitado também por Neil Gaiman na série Livros da Magia (a história do VEDADEIRO Harry Potter – estou brincando!), onde o personagem, junto com John Constantine e outros místicos (a “Brigada dos Encapotados”), ajudam Tim Hunter a adentrar no mundo da magia. Neil Gaiman também deu uma outra visão da relação Doutor Oculto/Rose Psychic, mostrando que, ao invés de irmãos ou parceiros, os dois eram na verdade as facetas feminina e masculina da mesma persona e essas facetas se alternavam dependendo da situação (Rose entrava em cena quando a situação exigia tato, delicadeza e comunicação, enquanto que Doutor Oculto aparecia quando a situação exigia força e conflito).

Doutor Oculto também fez parte do grupo “Sentinelas da Magia” que antecedeu, por assim dizer, o Pacto das Sombras e, atualmente, pós Novos 52 da DC, creio (corrijam-me se eu estiver errado) que o personagem esteja meio esquecido por ora. Mas ainda é um personagem muito lembrado, especialmente por quem acompanhou o universo sobrenatural da DC Comics entre os anos 80 e 90.

Curiosidades:
– More Fun Comics foi a primeira revista em quadrinhos publicada pela editora que mais tarde se tornaria a DC Comics;
– Doutor Oculto foi criado por Jerry Siegel e Joe Shuster, os mesmos criadores do Superman;
– Apesar de ter sua primeira aparição creditada em More Fun Comics, Doutor Oculto apareceu antes em outra revista, The Comics Magazine #1, da editora Centaur Publications. O curioso desta informação é que, além às vezes ter outro nome (Dr. Mystic), ele era mostrado como alguém que viajava por mundos místicos, sendo capaz de voar e usando uma roupa que era apenas uma sunga e uma capa. Ou seja, embora ele tenha sido reformulado logo depois, isso faz com que ele também seja o primeiro super-herói americano com superpoderes e capa (apesar de não muito mais que isso), antes mesmo de O Fantasma (1936) e do Superman (1939);
– Outros personagens conhecidos que surgiram na revista More Fun Comics ao longo dos anos foram o Espectro, Senhor Destino, Arqueiro Verde, Aquaman e Superboy.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Edições anteriores:

14 – Terror no mundo real: o Comics Code Authority, parte 1

13 – Da TV para os quadrinhos: Elvira, a Rainha das Trevas

12 – EC Comics , epílogo: O Discurso Contra a Censura

11 – Criadores de Terror: Salvador Sanz

10 – EC Comics, parte 3: o fim

9 – Super-heróis com um “pé” no terror: Homem Formiga

8 – Interlúdio: Shut-in (trancado por dentro)

7 – EC Comics, parte 2: o auge

6 – Interlúdio: Garra Cinzenta, horror pulp nacional

5 – EC Comics, parte 1: o início

4 – Asilo Arkham: uma séria casa num sério mundo

3 – A Era de Ouro dos comics de terror

2 – Beladona

1 – As histórias em quadrinhos de terror: os primórdios

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