Sarjeta do Terror #25 – Warren Publishing: Contornando o Comics Code

Sarjeta do Terror #25 – Warren Publishing: Contornando o Comics Code

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O gênero de terror nos quadrinhos norteamericanos passou por uma fase difícil quando o Comics Code foi instituído por lá. Não podendo tratar de temas como criminalidade, uso de drogas e assassinatos, nem representar monstros diversos, como Lobisomens, vampiros, demônios e outros tipos de criaturas, ficava virtualmente impossível para o gênero sobreviver.

Somente a partir dos anos 70, com a primeira revisão revisão dos critérios do código é que as editoras, especialmente as grandes DC e Marvel, puderam voltar a flertar com o gênero e o terror começou, aos poucos, a voltar para as HQs mainstream – embora ainda levaria mais uma década para este gênero amadurecer em narrativas mais adultas.

Antes disso, não havia muito o que fazer para quem queria publicar quadrinhos de terror. A não ser uma coisa: explorar a “brecha legal” do código. Nos EUA, o termo “comic book” (popularmente chamado de comics) se referia a um formato bem específico de publicação impressa (que aqui acabamos conhecendo como “formato americano”), ou seja, qualquer sanção aos comics se restringiam, ao menos em certa medida, ao formato no qual a HQ era publicada. Se publicado num formato diferente, a história escaparia da “jurisdição” do Comic Code e poderia figurar todos os elementos que eram proibidos pelo código. Essa brecha foi a grande sacada de James Warren ao fundar a sua famosa editora, a Warren Publishing, em 1958.

Warren (o James), na verdade, inicou a Warren (a editora) com uma publicação chamada Famous Monsters of Finland, que era na verdade uma revista dedicada principalmente ao cinema de terror, com matérias, artes conceituais e imagens de divulgação de filmes de horror, da era dos filmes mudos ao período corrente.

Com o sucesso de Famous Monsters of Finland, a Warren começou a publicar outras revistas a partir de 1960, começando com Spacemen, a versão sci-fi da Famous Monsters… que cobria filmes de ficção científica; Help!, revista satírica que vinha na mesma “vibe” da já popular Mad (e era inclusive editada por Harvey Kurtzman, depois de ter deixado o cargo na própria Mad) e com Monster World, uma espécie de revista irmã da Famous monsters. Foi em Monster World que a Warren deu os primeiros passos em direção aos quadrinhos, com tiras que adaptavam diversos clássicos do cinema.

As HQs publicadas em Monster World foram crescendo cada vez mais, em tamanho e em popularidade, e acabaram originando Creepy e Eerie, as primeiras revistas em quadrinhos de fato da editora, que conseguiram escapar da foice do Comics Code com o argumento de que, devido ao preço e ao formato, elas eram revistas (magazines) e não gibis (comic books). Isso abriu caminho para outras editoras publicarem histórias que fugissem do código neste formado, como a Skywald e até a Marvel, com a revista Savage Tales (onde surgiu o Homem-Coisa).

Tanto Creepy quanto Eerie eram séries no formato de antologia, onde diversas histórias fechadas eram apresentadas por edição. E, nos passos da E.C Comics e dos horror hosts da televisão, ambas as revistas possuíam seus próprios “horror hosts”, o “Tio Creepy” e o “Primo Eerie”, respectivamente.

A Warren também publicou outras revistas não tão voltadas para o terror, mas de teor adulto, como Blazing Combat, uma revista de guerra, e 1994, que navegava pela ficção cientítica pulp. Mas provavelmente o produto mais popular da editora foi a terceira antologia de horror publicada pela Warren, Vampirella, que começou a ser publicada em 1969, após um período turbulento para a editora, onde a empresa se mudou de cidade, teve adaptações por conta de mudanças no mercado de distribuição e perda de alguns artistas.

Embora tivesse suas próprias histórias, Vampirella começou servindo como Horror Host de sua revista, apresentando outras histórias fechadas, de forma parecida com Creepy e Eerie. Mas a popularidade da personagem aumentou o suficiente para que, eventualmente, a revista se tornasse apenas dela. Originalmente, Vampirella é uma extraterrestres originária de um planeta tendo dois sóis chamado Drakulon (ou Draculon, dependendo da grafia), onde é parte de uma raça vampírica que vive de sangue (porque em Drakulon sangue flui em rios como a água aqui na terra). Vampirella acaba vindo para cá quando uma espaçonave terrestre cai em seu planeta. Como sua raça está quase em extinção devido à escassez de “água” no planeta, ela acaba vindo para a Terra com o astronauta ao descobrir que os terrestres possuem sangue em suas veias.

A Warren também republicou, nos anos 70, as histórias clássicas de Spirit, do Will Einster, desta vez no formato magazine. Mas, a partir do início dos anos 80, James Warren não pôde mais segurar a onda e acabou decretando falência em 1983. No mesmo ano, a Harris Publications comprou a chamada “massa falida” da editora e chegou a trazer de volta personagens como Vampirella. E, num processo cujos detalhes me são desconhecidos, James Warren acabou recebendo de volta os direitos de Creepy e Eerie em 1998.

No Brasil, histórias da Creepy e Eerie foram publicadas em diversos períodos, especialmente nos anos 70 e 80 em revistas como Kripta. Recentemente, a editora Devir lançou encadernados que compilam as edições originais de Creepy.

Curiosidades:

– Famous Monsters of Finland era para ser, originalmente, um one-shot (ou seja, uma revista de apenas uma única edição), mas teve tanta procura que acabou se tornando uma revista periódica;
– A primeira funcionária contratada para trabalhar na revista Help! foi Gloria Steinem, famosa ativista feminista dos anos 60 e 70;
– Outros colaboradores da Help! que se tornaram famosos posteriormente foram Terry Gilliam, John Cleese e Woody Allen;
– Vampirella teve uma adaptação live action direto para vídeo, onde Talisa Soto interpretou a personagem título e Roger Daltrey (do The Who) fez o papel de Vlad.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Edições anteriores:

24 – Prontuário 666, os anos de Cárcere de Zé do Caixão

23 – Da TV para os quadrinhos: Arquivo X

22 – Criadores de Terror: Eugenio Colonnese

21 – Terror nas grandes editoras, parte final

20 – Terror nas grandes editoras, parte 2

19 – Uzumaki

18 – Terror nas grandes editoras, parte 1

17 – Do cinema para os quadrinhos: Evil Dead/Army of Darkness

16 – Terror no mundo real: o Comics Code Authority, parte final

15 – Super-heróis com um “pé” no terror: Doutor Oculto

14 – Terror no mundo real: o Comics Code Authority, parte 1

13 – Da TV para os quadrinhos: Elvira, a Rainha das Trevas

12 – EC Comics , epílogo: O Discurso Contra a Censura

11 – Criadores de Terror: Salvador Sanz

10 – EC Comics, parte 3: o fim

9 – Super-heróis com um “pé” no terror: Homem Formiga

8 – Interlúdio: Shut-in (trancado por dentro)

7 – EC Comics, parte 2: o auge

6 – Interlúdio: Garra Cinzenta, horror pulp nacional

5 – EC Comics, parte 1: o início

4 – Asilo Arkham: uma séria casa num sério mundo

3 – A Era de Ouro dos comics de terror

2 – Beladona

1 – As histórias em quadrinhos de terror: os primórdios

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