Sarjeta do Terror #13 – Da TV para os quadrinhos: Elvira, a Rainha das Trevas

Sarjeta do Terror #13 – Da TV para os quadrinhos: Elvira, a Rainha das Trevas

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Mais conhecida aqui no Brasil por aqueles que cresceram nos anos 80 e 90, Elvira é uma das icônicas personagens de terror americanas. Mas sua história começa muito antes do filme exibido à exaustão na sessão da tarde – e antes mesmo da própria criação da personagem.

Entre os programas temáticos mais comuns nos EUA nos anos 50, 60 e 70, estavam os “horror film shows”, isto é, programas que exibiam filmes de terror, muitas vezes de monstros, mas haviam também aqueles que exibiam filmes B, filmes antigos e filmes sci-fi de baixo orçamento. Estes programas contavam geralmente com um apresentador com um visual adequado ao clima, que comentava e introduzia os filmes que seriam apresentados.

Um destes programas era “The Vampira Show”, considerado o primeiro a usar o formato de exibir filmes com um apresentador introduzindo-os. O programa era apresentado por Vampira, interpretada pela atriz Maila Nurmi, que também criou a ideia do visual da personagem. Estava criado o primeiro “horror host/hostess” da TV (algo com “Anfitriões de Horror”, como ficaram conhecidos).

Elvira, criação da atriz Cassandra Peterson (que também interpreta a personagem) surge nos anos 80 para substituir um programa muito popular chamado Fright Night, por conta da morte do ator que interpretava o Horror Host do programa. Seu programa era “Elvira’s Movie Macabre” (às vezes apenas “Movie Macabre”), que tinha The Vampira Show como referência visual, mas um formato mais voltado para o “terrir” pois, além de exibir filmes B, tinha Elvira como uma apresentadora de roupas bastante apertadas, um decote difícil de ignorar e um corpo bastante… avantajado. Além disso, seu estilo satírico envolvia piadas consigo mesma, com seu visual, com os filmes, com o gênero e tudo o mais que pudesse ser alvo de seus comentários ácidos.

A série durou 5 temporadas, até mais ou menos 1986, mas sua popularidade apenas continuou crescendo, tanto que a personagem acabou se tornando um ícone cult, tendo protagonizado 2 filmes (sendo o mais conhecido por aqui o primeiro, Elvira, A Rainha das Trevas) e se tornado uma lucrativa marca para publicidade e merchandising. E, como não poderia deixar de ser em casos como esse, também migrou para os quadrinhos em 3 ocasiões distintas.

Elvira’s House of Mistery (DC Comics, 1986/1987)

A partir dos anos 70, as duas grandes editoras (DC e Marvel) decidiram investir no gênero de Terror (ou pelo menos no terror que era possível dentro das limitações da época – ainda era tempo do Comics Code, ainda que revisado). Enquanto a Marvel tinha A Tumba do Drácula e Werewolf by Night, entre outros, a DC tinha, principalmente, A Casa dos Mistérios e A Casa dos Segredos, quadrinhos de antologia que trabalhavam com o conceito dos Horror Hosts, tendo os personagens Caim e Abel (sim, os irmãos da Bíblia) como anfitriões, respectivamente.

Em 1986-87, a DC resolveu dar uma chacoalhada na Casa dos Mistérios trazendo Elvira para “invadir” a casa e se tornar a anfitriã temporária. Na história inicial, que é quase uma sequência direta do seu programa “Movie Macabre” – que havia sido encerrado, a personagem se vê obrigada a se abrigar numa velha casa para fugir de uma turba enfurecida que quer queimá-la viva (por sua familiaridade com as artes negras, e essas coisas). Ao decidir conferir melhor a casa, Elvira acaba se tornando a anfitriã involuntária quando descobre que Caim está desaparecido e que a própria casa incumbe a ela a tarefa de procurá-lo. Enquanto isso não acontece, ela faz o que sabe fazer melhor: apresentar, a cada edição, diversas histórias de terror. As capas normalmente satirizavam alguma das histórias internas ou faziam pequenas homenagens a temas diversos da ficção.

Elvira’s house of Mistery foi um experimento interessante da DC Comics, pois foi basicamente uma adaptação do formato televisivo para os quadrinhos, aproveitando-se de uma publicação já consolidada da editora. Entre as histórias mostradas e a tarefa de encontrar Caim, Elvira tira sarro da casa e da missão, bem ao estilo da personagem. Essa fase foi curta, durou apenas 11 edições (mais um especial de natal) e logo trouxe de volta o anfitrião original.

Elvira, Mistress of The Dark (Marvel Comics, 1988)

A principal concorrente da DC Comics também teve sua chance de publicar a personagem, numa one-shot (edição única) que adaptava o primeiro filme, Elvira, a Rainha das Trevas. A arte da capa foi produzida por Joe Jusko, icônico capista de estilo realista que fez fama em revistas como a Heavy Metal, e na própria Marvel Comics.

Elvira, Mistress of the Dark (Claypool Comics/Eclipse Comics 1993-1996)

Uma série mais duradoura surgiu pela editora Claypool, nos anos 90. Aproveitando-se do filme lançado em 1988 e do fato de que a editora havia adquirido os direitos de publicação da personagem, foi lançada, em 1993, a HQ seriada Elvira, Mistress of The Dark.

Diferente da encarnação vista em House of Mistery e mais como uma sequência informal do filme original, a série em quadrinhos explorava a vida de Elvira, uma Horror Hostess com um cotidiano nada glamouroso e sempre complicado por problemas diversos, e suas aventuras, seja com palhaços assassinos, seja com criaturas sobrenaturais, seja com seus produtores e o pessoal de Hollywood. As capas eram fotografadas e protagonizadas pela própria atriz Cassandra Peterson interpretando Elvira.

A série tinha uma pegada bem mais humorística, mais num formato de paródia de temas ficionais (especialmente de elementos e personagens clássicos das HQs de horror) do que Elvira’s House of Mistery e durou até 1996, totalizando 166 edições publicadas.

Curiosidades:
– Maila Nurmi, a Vampira, criou o visual da personagem que interpretou, Vampira, a partir de Mortícia Adams, personagem das tiras de Charles Addams;
– Horror Hosts nunca foram uma exclusividade da televisão: Na verdade, antes mesmo de Maila Nurmi estrear The Vampira Show, a EC Comics já possuía pelo menos 3 personagens que possuíam função semelhante, cada um para uma de suas revistas populares: The Vault of Horror, The Haunt of Fear e Tales from The Crypt;
– Maila Nurmi também é vista como sua personagem Vampira em Plano 9 do Espaço Sideral, de Ed Wood;
– Cassandra queria originalmente que o visual de Elvira fosse inspirado no filme The Fearless Vampire Killers (A Dança dos Vampiros), de Roman Polanski, mais especificamente pela personagem de Sharon Tate. Mas a ideia foi recusada pelos produtores;
-Uma das edições de Elvira’s House of Mistery foi lançado, propositalmente, sem o selo do Comics Code. Começava-se a abrir uma porta para as grandes editoras irem, aos poucos, abandonando a submissão ao código;
– Elvira, Mistress of the Dark (a série de quadrinhos da Claypool) contou com diversos artistas e autores conhecidos em seu front, como Paul Dini, Kurt Busiek, Steve Leialoha entre outros;
– Embora tenha aparecido no Universo DC apenas durante a sua curta fase em House of Mystery, o DC Wikia lista Elvira como personagem pertencente ao universo pós-crise, ou seja, existindo no cânone cronológico da editora deste período;
– Elvira também lançou álbuns musicais: Elvira and the Vitones 3-D TV (1982), Vinyl Macabre (1983), Elvira Presents: Haunted Hits (1987), Elvira Presents: Monster Hits (1994) e Elvira Presents: Revenge of the Monster Hits (1995).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Edições anteriores:

12 – EC Comics , epílogo: O Discurso Contra a Censura

11 – Criadores de Terror: Salvador Sanz

10 – EC Comics, parte 3: o fim

9 – Super-heróis com um “pé” no terror: Homem Formiga

8 – Interlúdio: Shut-in (trancado por dentro)

7 – EC Comics, parte 2: o auge

6 – Interlúdio: Garra Cinzenta, horror pulp nacional

5 – EC Comics, parte 1: o início

4 – Asilo Arkham: uma séria casa num sério mundo

3 – A Era de Ouro dos comics de terror

2 – Beladona

1 – As histórias em quadrinhos de terror: os primórdios

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