Sarjeta do Terror – A história dos quadrinhos de Terror: os primórdios

Sarjeta do Terror – A história dos quadrinhos de Terror: os primórdios

Saudações, argonautas! A partir de hoje, estarei pintando por aqui semanalmente para falar sobre quadrinhos dentro de um nicho muito específico, mas bastante popular: o terror. Minha intenção é evitar fazer posts muito longos ou divididos em várias partes. Quando o segundo caso for necessário, tentarei fazer com que cada texto seja fechado por si próprio, podendo também ser lido isoladamente. Para não cansar o leitor, pretendo alternar textos mais “históricos” alternando com postagens mais específicas (sobre uma HQ, um autor, etc). Espero que assim os leitores possam aproveitar e digerir melhor a leitura desta coluna.0-capapost1

Para inaugurar esta coluna semanal, penso que nada mais adequado do que analisar as origens das Hqs de terror como conhecemos e falar um pouco sobre sua evolução. Então, vamos então ao que interessa?

Tentar traçar a origem de qualquer estética narrativa é uma tarefa impossível de se conseguir com a precisão que as pessoas esperam, uma vez que as histórias são quase tão antigas quanto a espécie humana. Por essa razão, vou ignorar os antecedentes do terror que não são histórias em quadrinhos e fechar num recorte mais limitado, para tornar o texto mais curto e acessível. Também vou usar como parâmetro os chamados “quadrinhos modernos”, ou seja, o formato usado a partir do século 19 (já que, assim como as estéticas narrativas, também podemos traçar a alinha do tempo dos quadrinhos para muito antes no tempo).

A trajetória dos quadrinhos de terror começa informalmente, lado a lado com a dos quadrinhos de fantasia e space opera, dentro dos chamados quadrinhos pulp*. Para quem não sabe, “pulp” foi um formato popular no início do século 20. Eram revistas de histórias sensacionalistas sem muita profundidade literária impressa em papel baratíssimo e de baixo custo para o leitor. Os pulps não possuíam muito compromisso como cronologia, com caracterização aprofundada de personagens e muito menos com a realidade e tinham o único propósito de ser um entretenimento simplista e descompromissado. Os estilos mais populares nos quadrinhos pulp eram o space opera, histórias criminais e um tipo de horror descartável com forte influência no horror naturalista.

O terror encontrou caminho nos quadrinhos pulp principalmente (mas não exclusivamente) através de um subgênero que ficou conhecido como “weird menace” (algo como “ameaça esquisita”), que era caracterizado por histórias onde o protagonista se via às voltas com vilões sádicos e contava com cenas gráficas de tortura, violência e brutalidade**. Em geral, as resoluções das histórias dentro do “weird menace” possuíam explicações racionais, embora um ou outro se aventurasse a envolver o sobrenatural.

O primeiro pulp de weird menace foi provavelmente Dime Mystery, que começou como uma história padrão de detetive (que era o estilo mais popular no início), mas com o tempo foi desenvolvendo, lá por 1933, um novo gênero, com influências no Teatro do Grand Guignol. A partir daí, outras publicações seguiram nessa linha, e surgiram revistas como Terror Tales, Horror Stories e os comics do Red Circle Publishing, como Mystery Tales, que aumentaram bastante o conteúdo gráfico de tortura.

O leitor mais atento deve imaginar que o aumento significativo das cenas de horror nestas revistas não passou despercebido pela sociedade americana da época, e provocou um clamor público contra estas publicações. Com o tempo, as críticas ao conteúdo acabaram sepultando o gênero. Isso foi no início dos anos 40, bem antes do infame Comics Code (embora seja bem possível que outros fatores também tenham contribuído, como o surgimento e subsequente transferência de popularidade dos pulps para os super-heróis).

Estes foram os primórdios das hqs de terror, pelo menos nos EUA. É verdade que o terror não se resume à América do Norte, mas ela certamente constitui o melhor ponto de partida para falar sobre o tema. Com o tempo, tentarei escrever sobre os quadrinhos de terror em outros países (principalmente por que não pode faltar uma palavra sobre as Hqs de terror no Brasil).

Na próxima vez que revisitarmos a história dos comics de terror, falaremos sobre as revistas de terror propriamente ditas, pós-pulp, e a “era de ouro” dos quadrinhos de terror americanos, onde o grande expoente certamente foi o advento da E.C. Comics.

Curiosidades:

– Em geral, os pulp comics apenas estenderam a atuação das revistas pulp para os quadrinhos, levando muitos personagens para as páginas ilustradas. Muitos destes personagens lembrados até hoje surgiram, foram popularizados ou encontraram seu caminho nos pulps, entre eles Doc Savage, O Sombra, Tarzan, Zorro, Ka-Zar, Buck Rogers, Solomon Kane e Conan;

– “Red Circle Publishing” era o nome “guarda-chuva” de um grupo de empresas de publicação de livros e pulps liderada por Martin Goodman, que expandiu o subgênero do “weird menace”. O principal braço de quadrinhos de Goodman dentro do Red Circle era a Timely Comics, que posteriormente se tornaria a Marvel Comics.

*Vale ressaltar que, na maior parte do tempo, quando estiver me referindo a quadrinhos de terror, estarei falando majoritariamente dos comics (quadrinhos norteamericanos). Existem, é claro, quadrinhos de terror em outros lugares, nos quadrinhos europeus, nos mangás, nos quadrinhos nacionais… Mas como eles possuem um contexto próprio, serão deixados de lado aqui e provavelmente terão postagens a respeito futuramente.

**No cinema, subgênero similar é chamado de “splatter”.

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