Sarjeta do Terror #36 – Dylan Dog

Sarjeta do Terror #36 – Dylan Dog

Apesar de ter uma publicação irregular no Brasil, Dylan Dog é um dos personagens mais conhecidos dos fumetti, em particular da Sérgio Bonelli Editore, e segue firme e forte há mais de 30 anos, tanto na Itália quanto ao redor do mundo.

Publicado pela primeira vez em 1986, Dylan Dog foi criado por Tiziano Sclavi, com os visuais pelo artista Claudio Villa. Conhecido como “Investigador do Pesadelo”, Dylan Dog é um investigador particular cuja expertise está em casos considerados sobrenaturais. O personagem tem características que o tornam bastante peculiar: quase sempre sem dinheiro, é um vegetariano que apoia os direitos dos animais, odeia tecnologias modernas e é cheio de fobias, além de ter enjôo constante – é o motivo pelo qual as histórias se passam quase sempre em Londres, onde reside, e se precisar viajar, nunca o faz de avião. Dylan Dog tem treinamento pela Scotland Yard, onde costumava trabalhar sob o comando do Inspetor Bloch e tem um passado como alcoólatra, sendo hoje abstêmio e não fumante.

Dylan vive num apartamento desorganizado com uma campainha que grita junto com Groucho, seu assistente e parceiro inseparável, basicamente um sósia do Groucho Marx. Apesar de ser uma HQ de horror, Dylan Dog se destaca por desafiar tradições do gênero, misturando humor e surrealismo, tornando a revista um produto singular.

As histórias de Dylan Dog são normalmente contadas na forma de antologia, sem grandes amarras cronológicas, mas, ao longo do tempo, diversas edições contaram partes da origem do personagem, que é bem complexa e ainda possui algumas lacunas – que deverão ser exploradas no futuro.

(Tenha em mente que a origem descrita a seguir contém SPOILERS que podem estragar a leitura de algumas histórias. Caso não queira saber detalhes, pule para o parágrafo “Edições”.)

Origem secreta

Ao contrário do que se poderia pensar, Dylan nasceu no século XVII, 3 séculos antes da primeira edição. Seu pai, Dylan Dog Senior, era um alquimista que buscava o último componente para um soro que lhe proporcionaria imortalidade, o que encontrou no corpo de um molusco marinho desconhecido. Mas a viagem para essa descoberta terminaria em tragédia quando uma insurreição dos marinheiros que o ajudavam na busca acarreta a “morte” do pai de Dylan, que havia tomado o soro. A tentativa de assassinato foi, no entanto, realizado por alguém que se revelaria um demônio molusco, que queria punir o alquimista pela audácia de almejar a imortalidade.

Como consequência destes eventos, Dylan Senior é dividido em dois seres: um bom e um mal. O bom é sentenciado a viver por 666 anos em exílio num asteroide no limiar do universo, enquanto que o mal, chamado de Xabaras permanece na terra, condenado a ser temido e odiado por todos. (e mais tarde acabará se tornando um dos antagonistas recorrentes de Dylan Dog). Além disso, o vilão aprisiona sua esposa num caixão de vidro enquanto envia seu filho para um orfanato, com o objetivo de seguir sua pesquisa pela imortalidade sem incômodos.

Logo Xabaras se arrependeria de abandonar seu filho. Mas, ao tentar procurá-lo no orfanato, descobriria que o garoto desapareceu misteriosamente. Na verdade, em sua primeira noite no orfanato, o jovem Dylan receberia a visita do demônio que dividiu seu pai em dois. A criatura o lança então 3 séculos no futuro, para o presente no qual as histórias de Dylan Dog se passam.

Os primeiros anos no século XX

Nesta nova era, Dylan é adotado por um jovem casal, cujo pai e avô adotivo também se chamavam Dylan, o que viram como um sinal do destino e uma justificativa para a adoção – sem conhecerem a verdadeira origem do garoto.

Embora caçado pelo seu verdadeiro pai, (ou a metade má do seu verdadeiro pai), Dylan vive uma infância tranquila, sem conhecimento da existência de Xabaras. Os detalhes sobre sua infância são desconhecidos. Sabe-se que apenas com 16 anos depois ele passou suas primeiras férias sozinho, onde viveu um caso com sua amiga, Marina Kinball. Foi nesta ocasião que ele encontrou a arma que carrega consigo até hoje.

Seu pai adotivo acaba conhecendo Xabaras e conta a Dylan sobre a existência do Dr. Xabaras, embora este não saiba de todos os detalhes detalhes. Para Dylan pai, a criatura era apenas um cientista louco que, em sua insanidade, acreditava ser o verdadeiro pai do jovem.

A transformação no Dylan Dog que conhecemos

Lá pelos seus 20 anos, Dylan se mudou para Londres, onde se tornou agente da Scotland Yard sob as ordens do Inspetor Bloch. O inspetor, que era de certa forma um pai ausente, via em Dylan Dog o filho que ele queria ter e vira sua figura paterna.

Enquanto isso, Londres sofreu ataques do IRA e, neste período complicado, oficial Dylan Dog conhece pela primeira vez aquele que se tornaria mais adiante seu assistente, Groucho. Além disso, se apaixona por Lilly Connolly, uma católica do IRA. Com os claros conflitos entre os dois – a jovem era autora de diversos ataques – o romance se tornou impraticável, especialmente quando Lilly foi presa por uma taque fracassado e sentenciada à morte. Dylan, no entanto, consegue se casar com ela antes da execução.

Em consequência destes eventos, Dylan passa a beber, torna-se um alcoólatra e deixa a Scotland Yard.Bloch tenta ajudar Dylan, mas está ocupado com os seus próprios problemas envolvendo o filho. Ainda assim, ajuda Dylan a conseguir uma licença de investigador particular. Dylan aluga um apartamento na rua 7 Crave e dá início a sua profissão como investigador do pesadelo. É durante sua primeira investigação que reencontra Groucho e o faz seu assistente. Mas, na verdade, Groucho, um ex-ator que caiu em desgraça, serve como um amigo para Dylan, cuidando dele e ajudando-o desistir do álcool.

Edições

Tradicionalmente publicada em preto e branco, como as outras hqs da Bonelli, Dylan Dog teve edições totalmente coloridas para celebrar certas datas-chave, como números que são múltiplos de 100, quando o personagem completa uma nova década e outras ocasiões raras. Além disso, em 2007, uma série chamada “Dylan Dog Color Fest” foi lançada, com cada edição contendo 4 histórias coloridas.

Além de Sclavi, outros roteiristas escreveram Dylan Dog ao longo das décadas, entre eles Paola Barbato, Claudio Chiaverotti, Pasquale Ruju e Michele Medda. Nos desenhos, passaram pela revista artistas como Angelo Stano, Bruno Brindisi, Corrado Roi e Claudio Castellini.

No Brasil, Dylan Dog foi publicado diversas vezes, de forma bastante irregular. Trazido para cá em 1991 pela editora Record (que publicou o personagem até 1993), a revista passou pela editora Conrad (de 2001 a 2002), pela editora Mythos (de 2002 a 2006) e, em 2017, teve uma nova minissérie lançada pela editora Lorentz.

Adaptações

Em 1994, foi lançado o filme italiano Pelo Amor e Pela Morte (Dellamorte Dellamore). O filme não é exatamente uma adaptação de Dylan Dog, mas é baseado num romance homônimo escrito por Tiziano Sclavi (seu criador) e é protagonizado por Rupert Everrett, que foi a inspiração visual para o detetive do pesadelo. Além disso, a história tem o plot e o tom que casam perfeitamente com as hqs. Na história, Francesco Dellamorte trabalha num cemitério e busca o amor enquanto se defende de mortos vivos que aparecem de vez em quando.

Uma adaptação direta, desta vez americana, foi lançada em 2011. Intitulada Dylan Dog e as Criaturas da Noite (Dylan Dog:Dead of Night), a produção tem Brandon Routh no papel-título e mostra Dylan como um detetive sobrenatural vivendo em Nova Orleans.

Uma adaptação independente e não oficial (entenda: não autorizada) em forma de série teve um piloto produzido e financiado elo austríaco Kevin Kopacka. Chamada de “Dylan”, Kopacka alega querer fazer uma adaptação fiel da HQ, além de fazer uma homenagem a clássicos de horror italiano. No entanto, por conta de direitos autorais, os nomes dos personagens tiveram que ser alterados. O episódio piloto está disponível para assistir no Youtube.

Dylan Dog segue sendo um dos personagens mais populares dos quadrinhos italianos e um verdadeiro fenômeno de vendas. Com histórias que misturam horror e humor, consegue se manter relevante para o gênero mesmo depois de três décadas de publicação ininterrupta.

Curiosidades:
– Para criar a representação gráfica do personagem, Claudio Villa se inspirou no ator inglês Rupert Everett, que tinha visto no filme Memórias de um Espião (Another Country);
– A inspiração para o nome veio do poeta Dylan Thomas. Era pra ser um nome provisório, mas acabou ficando;
– Em 2011, a revista Dylan Dog chegou ao número 300;
– O endereço onde vive Dylan Dog (7 Craven Road) é uma clara homenagem ao diretor Wes Craven (A Hora do Pesadelo, Pânico);
– Em cada edição, Dylan Dog se apaixona e perde uma mulher diferente. A maioria dos seus casos começa com clientes mulheres, com quem ele acaba tendo algum relacionamento;
– O parceiro de Dylan, Groucho, chegou a ter revista própria. A HQ, intitulada Dylan Dog Presenta: Groucho, foi lançada anualmente e durou 8 edições, de 1992 a 1999;
– Além do Brasil, outros países que também publicaram Dylan Dog foram Croácia, Sérvia, Macedônia, Dinamarca, Países Baixos, Polônia, Suécia e Turquia;
– Em Dylan Dog e os Demônios da Noite, o personagem Groucho foi mudado para “Marcus”, por problemas com os direitos de imagem de Groucho Marx.

 

Edições anteriores:

35 – Monstro do Pântano (parte 2 de 2)

34 – Monstro do Pântano (parte 1 de 2)

33 – Criadores de Terror: Bernie Wrightson

32 – Super-heróis com um “pé” no terror: Doutor Estranho

31 – Os 70 anos de Eerie #1

30 – Plantão Sarjeta do Terror – Sombras do Recife

29 – Criadores de Terror: Rodolfo Zalla

28 – Da TV para os quadrinhos: Além da imaginação

27 – Vigor Mortis Comics – Volume 1

26 – Super-heróis com um “pé” no terror: O Espectro

25 – Warren Publishing: Contornando o Comics Code

24 – Prontuário 666, os anos de Cárcere de Zé do Caixão

23 – Da TV para os quadrinhos: Arquivo X

22 – Criadores de Terror: Eugenio Colonnese

21 – Terror nas grandes editoras, parte final

20 – Terror nas grandes editoras, parte 2

19 – Uzumaki

18 – Terror nas grandes editoras, parte 1

17 – Do cinema para os quadrinhos: Evil Dead/Army of Darkness

16 – Terror no mundo real: o Comics Code Authority, parte final

15 – Super-heróis com um “pé” no terror: Doutor Oculto

14 – Terror no mundo real: o Comics Code Authority, parte 1

13 – Da TV para os quadrinhos: Elvira, a Rainha das Trevas

12 – EC Comics , epílogo: O Discurso Contra a Censura

11 – Criadores de Terror: Salvador Sanz

10 – EC Comics, parte 3: o fim

9 – Super-heróis com um “pé” no terror: Homem Formiga

8 – Interlúdio: Shut-in (trancado por dentro)

7 – EC Comics, parte 2: o auge

6 – Interlúdio: Garra Cinzenta, horror pulp nacional

5 – EC Comics, parte 1: o início

4 – Asilo Arkham: uma séria casa num sério mundo

3 – A Era de Ouro dos comics de terror

2 – Beladona

1 – As histórias em quadrinhos de terror: os primórdios

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