Analisando SUPERMAN Pelo Amanhã

Analisando SUPERMAN Pelo Amanhã

O parceiro do Curso Dinamo HQ Felipe Morcelli, responsável pelo portal Multiverso DC, maior referência sobre o Universo dos heróis DC em sites de língua portuguesa, gentilmente nos disponibilizou esta ótima resenha analítica sobre o album SUPERMAN – Pelo Amanhã (com roteiro de Brian Azarello e arte de Jim Lee). Lembrando que o álbum pode ser comprado em valores promocionais AQUI na versão simples e AQUI na versão de luxo.

Antes de efetuar a compra, leia atentamente ao texto de Felipe. Vale a pena!

SUPERMAN – PELO AMANHÃ : Uma análise [filosófica] por Felipe Morcelli

Introdução – Por uma questão de prioridade:

É a minha história favorita do Superman, por várias razões. Já disse isso aqui, e faço questão de repetir. Desde criança fui criado num ambiente Cristão e o Super-Homem fez parte de toda minha infância em cartoons, bonequinhos e outras diversidades. Pra mim, hoje com 24 anos, o “S” é uma forma de eu entender o poder de Deus como todo mundo gostaria que fosse, mas sabe que não é e faz com que tentemos ser super-homens com nossas próprias ações enfrentando as adversidades da vida, enquanto o poder maior fica para a vida após a vida. Não vou pregar religiões aqui, não vou convencê-los a tornarem-se religiosos, não vou convencê-los de que a história é boa – especialmente porque muitos fãs, com destaque para os americanos, não gostaram dela – vou apenas relatá-la em forma de significância pessoal, com uma análise filosófica dos conceitos políticos e religiosos empregados em cada uma das doze partes, oferecendo o espaço de debate para os leitores do website do Curso Dinamo HQ e do Multiverso DC.

Situando-se no Tempo:

Superman: Pelo Amanhã (Superman: For Tomorrow no original) foi publicada nos EUA na própria revista mensal do personagem, cuja numeração começou em 1986 com o próprio John Byrne e que hoje não existe mais ao unir-se com Adventures of Superman (e levando a numeração desta última), iniciando-se no número #204 e indo até o #215, atravessando 2004 e 2005. No Brasil ela saiu na revista do herói pela editora Panini exatos 12 meses depois, tendo sido coletada em dois encadernados com versões (e preços!) diferentes.

O conceito foi bolado pelo próprio escritor da história, Brian Azzarello, a convite de Jim Lee que queria trabalhar por um ano numa história do Homem de Aço. A reunião para decisão da ideia foi feita com as presenças de quase todo mundo que se envolveu, e aí vão nomes como os editores Dan DiDio, Will Dennis e Eddie Berganza, além do arte-finalista Scott Williams que sempre arte-finaliza as, como o próprio Jim fala, “cagadas” que ele faz nas páginas. Alex Sinclair fez as cores e foi convidado por Lee mais tarde.

Azzarello apresenta a todos uma história mais sombria, de tom totalmente adulto (fruto também das próprias experiências do autor com gibis adultos na Vertigo) e um Superman que é colocado em questão especialmente por sua onipotência e posição entre a raça humana, em diálogos tão inteligentes que podem ser analisados por horas separadamente. A visão que se tem do Superman nada mais é que uma questão de superioridade, seja dele perante toda a humanidade ou da crença em sua simbologia, que ao ser apontada e questionada torna uma rebeldia intelectual contra a hegemonia de seu poder, supostamente, supremo.

Analisando:

A primeira parte de Superman: Pelo Amanhã é uma apresentação conceitual dos muitos assuntos que a história tocará no decorrer de seus próximos onze capítulos. Existe uma característica muito relevante que percebe-se logo nas primeiras páginas, já nos primeiros diálogos, deste capítulo inicial que é a forma como se entende temas metafísicos e significados amplos de frases bem colocadas.

“Não é fácil ser eu. Sei que isso soa bastante egocêntrico, mas, até aí tenho me sentido um tanto egoísta ultimamente. E egoísta é algo que eu não tenho o direito de ser. As pessoas esperam… necessitam… que eu seja altruísta. Ou necessitaram… uma vez.”

Com estas frases Pelo Amanhã se inicia, desenvolvidas a seis mãos por Brian Azzarello, Jim Lee Scott Williams. O que é fantástico nestas primeiras falas, que soam à visão da grande cidade do amanhã, é que ela parece ser dita pelo Superman quando, na verdade, é dita pelo Padre Leone, que estava ouvindo as confissões da Tenente Lupé, antiga namorada sua antes que ele se ordenasse. A conversa é fantástica e já dá pra todos entenderem, de forma sutil, muito sobre estes personagens: anos atrás eles foram amantes, cada um seguiu um caminho na vida e agora eles se reencontram – Lupé até comenta que, ao perceber que todas as pessoas do mundo possuem uma conexão, próxima ou distante, isso a fez chorar. Este é outro tema central da trama, a conexão especial que cada pessoa tem com outra neste planeta, tema que também foi muito recorrente no seriado Lost.

Seguindo a história, o Superman chega na Igreja e começa uma conversa com o padre que parece ser uma confissão e é então que aprendemos do que se trata o mistério de toda esta saga: 1 milhão de pessoas sumiram da Terra sem a menor explicação exatamente no momento em que Kal-El saiu do planeta para salvar o Lanterna Verde (Kyle Rayner) em perigo do outro lado do universo. Ao voltar em solo terrestre ele ouve as notícias nos mais variados idiomas e percebe que sua ausência foi catastrófica. Pior: o problema tocou diretamente em sua vida, pois Lois Lane é uma das desaparecidas.

O acontecido é bastante simétrico – um milhão de pessoas sumiram exatamente quando ele estava há um milhão de quilômetros longe do planeta Terra. Ao garantir a confiabilidade do Pe. Leone, Kal-El revela alguns de seus piores medos, tenta passar uma mensagem de esperança, mas não esconde a preocupação de não ter pistas do que aconteceu. Tendo alcançado a liberdade com este homem de Deus, ele revela que tem uma esposa, uma vida sem o uniforme, mas não revela sua identidade.

“Meu pecado? Foi salvar o mundo”.

Quando se para pra pensar no que os humanos fazem entre si próprios e com o mundo à sua volta, não é de se pensar que alguém como Jesus (ou qualquer outro, seja lá qual for sua crença) se sacrificou para quem não merecia? Não teria sido um erro do Superman escolher olhar para o mundo de cima e esquecer de ser humano e andar nas ruas com os que quer proteger? São poucos mas muito importantes questionamentos que nos levam a perceber a qualidade desta trama e da simbologia quase antropológica que estes personagens carregam em suas histórias.

O Superman parte para salvar o mundo de outro perigo. Leone fica frente ao altar da igreja com as mãos no peito como se orasse por algo melhor para este homem, tão poderoso e ao mesmo tempo tão frágil pela culpa que tem em seu peito, no mesmo lugar em que ficar seu símbolo de poder: o “S”.

Reflexões e Anotações

[Nota: A numeração das páginas segue o padrão da versão encadernada da Panini]

9-Jim Lee mostra uma Metrópolis um pouco diferente no que estamos acostumados, justamente para seguir a tonalidade do conto. Vemos alguns subúrbios e pessoas mais pobres, como normalmente não aparecem em histórias do Super.

14-Esta imagem se tornou clássico instantâneo. A visão messiânica do Superman é indescritível, e deixa Padre Leone de joelhos. É difícil, para um Cristão, imaginar que exista alguém tão poderoso quanto ele.

18-20-Kal-El faz um jogo com o padre para ver se pode ganhar a sua confiança até chegar onde quer: fazer sua confissão.

31-Imagem clássica de Superman #1 revivida por Jim Lee aqui, mas revertendo seu conceito: ao invés de termos o homem poderoso que observa a tudo com um sorriso no rosto, temos alguém preocupado e desesperando para encontrar os que procura.

Mais uma vez temos uma história que começa com falas (de forma narrativa) que te fazem pensar sobre quem realmente está narrando tudo isso – e mais uma vez somos obrigados a imaginar que é o Superman, até vermos que não passa de uma senhorinha atendendo um café e contando de quando foi salva pelo herói passando a todos sua visão do que ele significa: quando sua vida parece não valer nada é no momento que ele te salva e te faz sentir importante que é quando a ela passa a ter valor novamente – tal relação também tem muito a ver com pessoas que redescobrem a fé, têm iluminações e coisas do tipo.

A história funciona de forma bastante orgânica e caminha naturalmente mostrando mais fatos e mais mistérios aos fãs e é muito curioso notar que Superman e Padre Leone estão percebendo aos poucos o que vem acontecendo assim como nós, que estamos do outro lado do quarto muro, observando e debatendo estes fatos. O uso de metáforas continua em alta, em especial quando Kal-El comenta sobre a guerra que tenta impedir no lugar em que a vida e a fé nasceram (falaremos rapidamente do diálogo mais abaixo). A fraqueza dele perante uma situação tão caótica é emocionante e nos mostra que não importa a posição que ele tome perante os seres-humanos: assim como os homens de fé que tornaram-se lendários, ele também é recusado por muitos.

Quanto ao desaparecimento das pessoas, temos poucas revelações. Vemos as conversas de Kal e Leone e sabemos que, em seus íntimos, cada um alimenta seus próprios fracassos e dúvidas, mas não sabem de algo que nós sabemos: ambos estão sendo seguidos por um homem ainda desconhecido e que promete ser uma das chaves para a resolução desta situação.

Destaque para algo muito legal nesta história: depois de dois capítulos até agora o Superman não tirou seu uniforme.Clark Kent não está presente, apenas o filho de Jor-El. Ótimo escolha de Brian Azzarello para narrar seu conto, brincando com a proximidade e frieza dele para com a humanidade.

[Nota: A numeração segue a da versão encadernada da Panini]

38-39-Superman enfrenta uma variação do primeiro vilão com o qual a Liga da Justiça teve um embate nos anos 1960, o famigerado Starro.

40-O homem que reclama das torradas merece atenção.

41-O vulto da menina na parede pode ser um efeito colateral do poder deste monstro.

46-47-Superman brinca com o famoso “que jogue a primeira pedra” jogando o pêssego na água enquanto corta o que o Padre Leone lhe fala sobre pecados, apenas para que as ondas geradas tornem-se ondas de radar na página seguinte. Bela transição artística!

49-”Onde também começaram, diriam alguns, a vida, a civilização, a fé… e a morte!“. Referência clara aJerusalém e ao Oriente Médio de forma geral – o local onde nasceu o símbolo que deu nome ao Cristianismo é o mais belicoso até os dias de hoje.

53-57-Um ensinamento curioso. Quando se atira a primeira pedra é quando inicia-se a guerra e tudo sai do controle até do mais poderoso entre nós: como é dito pelo Padre Leone na penúltima página do capítulo “até mesmo uma pedra perfeita faz ondas”, quando
ele atira o diamante feito pelo Superman ali naquele instante a partir de uma pedra. Excelente metáfora!

58-O homem que pediu as torradas, lembra? Ele terá um papel fundamental aqui.

Felipe Mocelli – Redator do site Multiverso DC

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