A calamidade da distribuição de gibis

A calamidade da distribuição de gibis

Aqui reproduzimos um ótimo texto, produzido pelo amigo do Dinamo Studio, ROBERTO GUEDES, roteirista profissional de quadrinhos,  editor da linha de quadrinhos clássicos da Marvel Comics pela Panini Comics Brasil, além de renomado pesquisador, tendo em seu curriculo excelentes obras sobre o tema, como QUANDO SURGEM OS SUPER HERÓIS, A SAGA DOS SUPER HERÓIS BRASILEIROS e o recente A ÉRA DE BRONZE DOS SUPER HERÓIS, que inclusive tem a arte de sua capa feita pelo professor e coordenador do Curso DINAMO HQ, Daniel HDR.

No artigo, publicado em seu blog, Roberto Guedes reflete e explica ao público sobre o fragil sistema de distribuição de quadrinhos do Brasil, que por suas inumeras deficiências, acaba por prejudicar em muitos aspectos os leitores e também que cria e produz estas publicações. Confira:
[ad#dinamohq-links-post]

A calamidade da distribuição de gibis

Em sua coluna para o site do The New York Times de 26 de janeiro deste ano, George Gene Gustines alertava para algumas medidas extremas aplicadas pela Diamond Comic Distributors que atingiriam, principalmente, as pequenas editoras de quadrinhos dos Estados Unidos, e, cujos reflexos começarão a ser sentidos logo mais, a partir de março.

A Diamond é a empresa que monopoliza a distribuição dos quadrinhos por lá, e por meio do seu catálogo Preview faz a ligação entre as editoras, os lojistas e os leitores. Diferente daqui, onde as editoras imprimem suas tiragens tomando por base a popularidade de cada título, resultados anteriores de vendas, e em orientações e acordos propostos pelas distribuidoras; na América, as editoras costumam produzir o número de exemplares de cada título (expostos no Preview) em cima dos pedidos confirmados pelos leitores nas gibiterias, ou “comic shops”, como são chamadas pelos americanos.

Com a queda cada vez mais vertiginosa nas vendas de gibis, a distribuidora força agora um aumento no valor do advanced, uma espécie de adiantamento pago pelas editoras à distribuidora para a execução do serviço, além de um aumento substancial nas tiragens, para melhor cobrir espaço territorial.

A estimativa é de que por volta de 40 editoras independentes sejam afetadas diretamente pelas mudanças, e que venham a sofrer reveses irreparáveis em seus já mirrados lucros. Para conglomerados como Marvel e DC isso não será grande problema, no máximo, alguns títulos menos conhecidos poderão desaparecer.

Algumas das pequenas já pensam na possibilidade de viabilizar gratuitamente suas séries via internet, para, em momento futuro, compilar um arco de histórias e vender num encadernado, o que lhe daria uma margem de lucro razoável. Ao que parece, o fim dos gibis de linha se anuncia – pelo menos para aqueles títulos que não estão sob a chancela das grandes companhias.

Em A Era de Bronze dos Super-Heróis, tracei a trajetória do visionário Phil Seuling, que ficou do final dos anos 1960 até o começo da década de 1980 batalhando pela melhoria da distribuição de comic books na esperança de tornar os mesmos em produto digno de figurar em espaços exclusivos, não enfurnados atrás de revistas de moda, de mulher pelada ou de passatempos, nas desleixadas prateleiras de farmácias e armazéns. Como resultado de seus esforços pioneiros, surgiram as comic shops, as minisséries e as graphic novels. Tudo para enobrecer a tão amada – e ainda desprezada por muitos – Arte Seqüencial. Porém, a coisa degringolou, e Seuling, quem sabe, ainda deu uma revirada no túmulo… por puro desgosto.

Pois é, aqui no Brasil muito se falou em organizar a distribuição de quadrinhos nos mesmos moldes do “Mercado Direto” americano, mas nunca, sequer, chegamos perto disso. Para não sermos injustos, a Opera Graphica bem que tentou – lá pelo começo desta década –, aplicar o seu sistema “HQ Club” usando a loja Comix de São Paulo como distribuidora de seus álbuns especiais. Mas a coisa sempre operou no velho esquema da consignação, ou seja: imprime primeiro, e depois vende o que consegue, gerando encalhe. Infelizmente não deu certo. A grande maioria das lojas brasileiras não tem cacife, clientes interessados o suficiente, e estrutura para comportar um sistema estilo Mercado Direto.

Falando em encalhe, mesmo editoras grandes como a Panini, possuem tiragens bem aquém do que se via em outras épocas, ou mesmo em comparação à de revistas de outros gêneros; o que propiciou a bizarra “Distribuição Setorizada”, que nada mais é que repassar o encalhe dos grandes centros para as praças mais distantes. As bancas até estão repletas de gibis, mas dificilmente você encontra um ponto desses com todos os títulos lançados no mês.

Mesmo com duas grandes distribuidoras (e algumas pequenas à la KamiKaze), o mercado brasileiro de Quadrinhos insiste na sofisticação de suas publicações, seja na temática, seja no acabamento gráfico. Nada contra isso, claro, mas não devemos abrir mão das lições que vêm de fora – como esse caso do elitista (?) Mercado Direto americano, que poderá desmoronar a qualquer momento, tornando-se o curral monopolista dos grandes “latifundiários editoriais”.

Estamos produzindo revistas em quadrinhos para quem, afinal?

Roberto Guedes

Deixe um comentário

comments